quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cachaça: Indo para a Praia

Chegava ao fim mais um longo dia de trabalho. Era a escolha de vida do Cachaça trabalhar com meninos de rua. Sua única vergonha era a gritante incapacidade para o malabarismo, que compensava com idas e vindas ao posto de gasolina enchendo a garrafinha de água suja com sabão. Cachaça despediu-se longamente, pois era começo de carnaval e nunca se sabe quem vai sobreviver.

Chegando em casa encontra o Lingüiça, descalço e fazendo brigadeiro na cozinha, de avental. A mãe do Cachaça está trancada em seu quarto e recusa-se a abrir ou responder. Por absoluta falta de alternativas o Cachaça resolve ir pra praia com o Lingüiça, que tinha uma casa em algum lugar da orla, e o Clark, que tinha nada melhor pra fazer. O Clark e o Cachaça ainda eram bem próximos, e ainda não havia nenhum acordo que rezava que ambos só voltariam a se falar se o Clark assumisse a alcunha de "mau-caráter", que valia pra ambos na verdade.

O Cachaça vai dirigindo o carro que secretamente emprestou da mãe e na estrada um congestionamento assombroso, todo mundo buzinando dentro do túnel, calor insuportável. Mais adiante no caminho, sem saber que rumo ou estrada tomar, o Cachaça solicita os serviços de um caminhoneiro próximo:

-"Vem cá, chegadinho, como é que a gente chega em.... em.... ô Lingüiça pra onde a gente ta indo mesmo?"
-"Pra minha casa!"

O Clark faz uma expressão peculiar, como quem sabe que jamais poderia descrever a cara de ódio do Cachaça nesse momento, que por sua vez pergunta de novo:

-"Ô, SEU IMBECIL, PRA ONDE TAMOS INDO???"
-"Pra minha casa, PORRA!"

Nisso o caminhoneiro mandou todos tomarem lá e foi embora achando que dele estavam mangando. O Lingüiça, que acha que só ele é esperto, ficou entre o azedo e uma expressão de vitória, meio incompreensível para quem estava prestes a ser largado no meio da estrada.

Por incrível que pareça no dia seguinte nossos heróis continuavam unidos, ao menos juntos, ainda que por repulsão mútua. Indo para a praia, um sujeito no terceiro andar de um prédio grita algo como "Santos", e em questão de minutos o Lingüiça está em ponto de briga, intimando o cara a descer do prédio e sair na mão. Possivelmente contando com a baixa probabilidade disso acontecer. O cara sai da varanda e entra no apto, presumidamente pra encher um saco com fezes e atirar nos nossos heróis, quando o Cachaça diz, docemente

-"ô, seu filho da puta, vamos embora logo pra praia!!"

Assim eles prosseguem pelo calçadão, paquerando menininhas e seguindo o fluxo, até que o Linguiça diz:

- "Cachaça, me empresta um real!"
O cachaça olha....
pensa...
e diz
-"Bom...eu tenho 1 real aqui..."
tira o real do bolso, coloca de novo
-"...eu tenho...
...eu podia até te emprestar...
...Não vai me fazer nenhuma FALTA...
...mas eu não vou emprestar , porque eu quero MUITO que você se foda!", disse com saboreada ênfase.

Parece que o Linguiça não voltou da praia junto com os outros, mas até hoje a mãe do Cachá pergunta com um suposto brilho nos olhos:

-"Filho, e aquele seu amiguinho Salsicha, por onde anda hein?"

4 intromissões:

crarque disse...

dizem q o salsicha hj em dia resolve mist�rios juntamente com um cachorro gigante,andando por a� numa van,hj em dia.

um cl�ssico essa,hein?nem sei como esperou tanto!

Anônimo disse...

muito engraçado. que turma de imbecis!

bartok disse...

kct. quem escreveu isso?
sensacional

NeuralNoise disse...

grande bartok, agora convertido em lenhador japones no canadá. vc tem uma chance de adivinhar quem foi que escrevi.