sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Dilúvio Interior

Tenho um amigo que se mudou pra um apartamento super legal e perto da minha casa. Tem três andares. Embaixo fica um quarto bacana, com luzes de motel e hidromassagem. No andar do meio tem a cozinha e sala, e no andar de cima uma sala de tv e um terraço com churrasqueira. E o amigo recentemente adotou dois gatitos fantásticos, o Panda e o Zurugui, que tem apenas três pernas. Quando ele foi adotado ele tinha quatro, mas isso é outra história. Pois o amigo foi viajar uma semana e pediu que eu passasse pra ver seus gatos, o que fiz com prazer não só pelos gatos, que são umas figuras, mas em retribuição pelo fato de que ele visita meus gatos quando viajo. E claro, pela hidro.

Pego minha moto e vou pra casa do sujeito. Sei que é perto mas qualquer coisa é um bom pretexto pra andar de moto (e ser burro, segundo alguns). Abro um vinho que encontro na adega do colega, mas não dos bons porque esses ele esconde. Deixo a banheira a encher de água e subo ao terceiro piso pra fumar um cigarrinho. Idiossincrática, a banheira só enche com água fria. Baforadas depois, volto para baixo, vejo que a água já cobriu os jatos da hidromassagem, ponto em que liga-se a circulação e o aquecimento. Leva uns vinte minutos pra esquentar a água toda, então pego duas revistas Veja e vou ler lá em cima.

Não sei o que aconteceu primeiro, se foi um insight de "SERÁ QUE EU FECHEI A TORNEIRA??" ou se foi por ouvir um som meio molhado "splosh splosh", como um mar.

Desço correndo e vejo que o andar inteiro estava alagado e a água agora invadia o andar de cima. Mentira, claro.

Desço correndo e vejo que a banheira estava transbordando, a água tinha invadido tudo, o ralo do banheiro que era a primeira defesa estava fechado, o colchão que fica no chão estava molhado e os gatos flutuavam em balsas improvisadas como pequenos náufragos. A primeira coisa que eu vi foi a banheira transformada em cachoeira, só me dei conta do tamanho do dilúvio quando vi que tinha molhado as meias, enquanto pensava em como iria repopular o mundo com apenas dois gatos, machos e castrados.

Primeiro fechar a torneira e desligar a hidro. Para isso sou obrigado a tirar a roupa toda menos a cueca, que achei que não molharia mas molhou. Tiro a tampa da banheira e abro o ralo ali do chão (o ralito, o ralito!!). Os gatos me olhavam de uma forma estranha.

Me pareceu um bom momento pra entrar em pânico, o que faço com destreza. O brother vai me matar. Ele quase matou a namorada, hoje ex, quando ela fez algo similar, imagine o que ele vai fazer comigo, que nem faço sexo com ele. A água vai invadir o vizinho, que vai chamar os bombeiros, arrombam a porta e eu vou estar aqui de cueca entre gatos flutuantes.

Arranco os lençóis da cama e tento fazer uma barreira, sem sucesso, enquanto os gatos já tinham dominado as técnicas de navegação à vela e ia de uma lado pro outro desse novo mar. Dobro o colchão ao meio, o que serve apenas pra permitir que a água vá mais longe e molhe ainda mais partes do colchão. Subo correndo e volto armado com um rodo.

O que aconteceu em seguida não foi uma cena de Fantasia, com o Mickey de aprendiz de feiticeiro controlando água e vassouras. Foi mais parecido com Escrava Isaura.
Passei as três horas seguintes lutando com a água, estica rodo, puxa rodo, o que me deu uma horrenda dor nas costas pela semana seguinte. O Banheiro era um degrau ao contrário, mais alto que o resto do chão, então para esvaziar o quarto era necessário fazer a água subir um degrau e chegar no elevado ralo. Usando um rodo. Acreditem, é difícil. Os gatos abandonaram a navegação e ficaram sapateando na água como banhistas felizes. Só faltou cantarem "singing in the rain".

Vou até o andar de cima e volto com um ventilador, que coloco basculando na direção do colchão, torcendo pra que nada mofe, e que o quarto volte ao normal antes do amigo voltar.
Quando tudo parece normalizado, encho a banheira e a taça de vinho e submerjo em ambas, me esquecendo do rodinho, que ficou lá embaixo como incriminadora prova.
E caso algum dia o tal brother leia isso aqui, já deixo bem claro: isso aqui é ficção e nunca aconteceu, juro. Podem perguntar pros gatos.

3 intromissões:

Ana Laura disse...

Hummm não sei se já disse que lhe acho um tanto quanto, enfático, talvez, para não dizer dramático. Mas disso com certeza surgem ótimas narrativas. Beijos

NeuralNoise disse...

humpf.

Anônimo disse...

Eu perguntei e eles contaram uma estória um pouquinhoooo diferente.... (preciso arrumar logo opções de catsiter)