terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ursos sob a neve

Fui convidado por uma instituição, meu pai, a passar dez dias em Whistler, na Colúmbia Britânica Canadense. O que segue é um breve relato 98% verídico.

dia 0
Percebo meus gatos, Mao-Tse-Tung e Lacan, deitados por horas olhando minha mala antes da viagem. Sabiam que eu ia viajar e pareciam preocupadíssimos - que eu levasse a mala embora, talvez. Nenhum urso à vista.

dia 1
25 horas de excruciante viagem.
Sinto como se tivesse sido trucidado por ursos. Li metade de um livro de contos de ficção científica do Primo Levi, fantástico. Enquanto em sua literatura de testemunho ele descreve horrores mas mantém a fé na humanidade, nos contos é quase o contrário. Preciso terminar logo pra devolver pro meu avô, antes que ele descubra o "empréstimo".

dia 2
Primeiro dia de snowboard, fomos direto pro topo da montanha, menos dez graus. Tudo em ordem apesar de surfar manco. Curva pra direita funcionando ok. Curva pra esquerda prejudicada pela perna ruim. Resolvi que estou bom o suficiente até para entrar em um campeonato, como a para-olimpíada, ainda que sem esperanças de vencer. Creio também que perderia uma competição com ursos amestrados. Descobri que é possível assistir "Tela Class" no youtube, ou baixar via torrent. Esses caras mereciam um Oscar.


dia 3
Eu e meu irmão resolvemos subir até o topo da montanha e além. para descer pela outra encosta. Uma gôndola, dois telefrígidos feéricos como pores-do-sol e um teleférico em que se vai arrastado na neve por uma picareta. Depois mais vinte minutos de caminhada morro acima, carregando a prancha e cavando degraus com a bota. Quase infarto antes de chegar lá. De cima até a base da montanha são dez quilômetros esquiáveis. No terceiro km paramos perto da floresta, onde observamos passarinhos. Ofereço um pedaço de bolacha pro pássaro, que vem buscar na mão. Bonitinho. Espero que o pássaro não morra por causa disso. De qualquer maneira meu joelho está morto.
Nenhum urso a vista, mas muitos arcos-íris. Seria desonesto não comentar que a semana era Gay Ski Pride Week ou algo assim.

dia 4
sonhei com uma festa em que se cheiravam vermes e escorpiões com um canudinho, como se fosse cocaína, que então se alojavam no pulmão. Talvez influencia tardia de Into the Wild, aliás um puta filme sobre o qual posto mais tarde. No sonho, fui de lá para um prédio estranho, escuro e sujo, subi escadas como se estivesse em uma academia, que dizia ter mais eventos de intercâmbio com outras academias. Tinha alguém subindo com uma mala enorme na minha frente, que eu não conseguia ultrapassar. O prédio fica mais sombrio à medida que subo, em um dado momento viro um corredor pra ver se tem elevador, mas logo vejo que cometi um erro e uma aura que parece um mendigo da história do Neil Gaiman para o Constantine começa a me sugar gravitacionalmente. Não deveria ter procurado o elevador.

dia 5
Ando como um robô mentalmente retardado que sofre de ferrugem. Peço serviço de quarto. O entregador me pergunta se eu vi o super-bowl, ao que respondo que não poderia me importar menos. Ele faz questão de continuar o assunto caso "eu tenha feito alguma aposta sobre o super-bowl". Imbecil. E nenhum urso à vista. Passo o resto do dia cantando "Blame Canada", do filme do south park.


dia 6
Já não sei se estou sofrendo de caspa ou neve.
Assisto na Tv um campeonato de Curling, o terceiro esporte nacional canadense. É um misto entre bocha e faxina. Consiste em uma pessoa arremessando uma chaleira pelo gelo enquanto outras duas saem correndo desesperadas, literalmente varrendo o caminho da chaleira com uma vassoura. O objetivo da chaleira é bater em outras chaleiras, que não quebram, ao contrário da minha faxineira, a Dona Maria, que não varre mas quebra tudo. Sonho com uma orgia que não me deixam participar.

dia 7
Estamos no teleférico, eu e JK, com mais dois sujeitos. Ao final, um deles pergunta: "are you going left or right? because we are going straight". Respondo "ah, good for you".
O sujeito parece se ofender, talvez só quisesse saber mesmo a direção. Culpa do arco-íris. Mais tarde, caloroso debate sobre uns pássaros pretos locais. mantenho até o fim que são gralhas, porque gralham, e não corvos, senão diriam nunca mais. Fraquinho o argumento, mas irresistível ante a possibilidade de serem, de fato, corvos.

Fui conhecer a professora de esqui do meu pai, uma sueca absolutamente sem vergonha na cara. Digo isso porque ela ostentava um peludo bigode loiro, que acumulava neve. Preciso me segurar pra não fazer o tradicional comentário que na Suécia só tem três coisas a fazer, suicídio, filme pornô e encher a cara, estou certo que ela ia me atacar com o bastão de esqui, uma grande vantagem dos esquiadores sobre os snowboarders. Descubro que a Suécia tem apenas nove milhões de habitantes, menos gente que, digamos, a Moóca.

Dia 8
Ao final do dia resolvo ir ali na chinesa fazer uma massagem. A senhora chinesa era uma canadense e chamava-se Mary, mas falava em chinês com os outros. Os chineses foram para o Canadá construir a estrada de ferro e nunca mais foram embora. Acredito que sejam maioria.
Com a mão pesada ela começa a massagem enfiando o cotovelo nas minhas costas, mas suponho que seja pra doer mesmo então não falo nada. Quando começa com a massagem de tapinhas, e eu penso, nossa, que fraquinho. Ela vai aumentando o vigor e súbito já estou pensando algo como "vai, me bate que eu gamo!". A intensidade continua aumentando e preciso me segurar pra não quebrar a cara dessa vagabunda. No final tem chá. Tenho um sonho deveras peculiar mas não encontro o maldito papelzinho em que anotei, só lembro que tinha um cachorro. E nenhum urso.

Dia 9
Apesar de dores generalizadas saio pra mais um dia de snowboard. Vamos para um desfiladeiro, algo como uma garganta cheia de neve acumulada. A pista é duplo diamante preto o que entendo como um "ok, mas cuidado".

Começo a descida, curva pro lado ok, ok. curva pro lado ruim e perco o controle da velocidade. Pra piorar atravesso uma lombada gigante e perco contato com o chão, aterrizo de costas, de cabeça pra baixo e a plena velocidade, que não para de aumentar. Tento "brecar" e não consigo, maldita ladeira. Começo a entrar em pânico, achando que vou rachar a cabeça numa pedra ou afundar o pescoço. Resolvo fazer uma manobra arriscada. jogando a prancha por cima de mim. A idéia com isso era dar meia cambalhota e cair de pé, o que dá certo, exceto que com a velocidade começo a capotar loucamente, cabeça, pés, cabeça, pés, e aterrizo novamente de costas, ainda em velocidade e de cabeça pra baixo, momento em que entro em pânico e acho que vou morrer. Enfio os braços na neve por cima da cabeça, pra tentar frear e eles quase são arrancados do ombro. Enquanto estou recuperando o fôlego, com neve até dentro da cueca, meu irmão aparece e pergunta se eu caí. Meu tombo mais homérico em 22 anos de neve e nem os ursos assistiram

dia 10
Excruciante viagem de volta, ursos etc

dia 11
Telefono para o médico, já imaginando a bronca que vou levar por ter re-fudido a perna e o joelho. Por sorte o desgraçado só pode me atender daqui quase um mês. Digo que até lá a perna vai se curar sozinha, sem inspirar muita compaixão da secretária, que sabe que isso não é verdade.

1 intromissões:

Ana disse...

Você consegue narrar suas aventuras de um modo tragicômico, adoro!

A propósito, concordo com o Oscar para Tela Class. rsrsrs

Beijos