quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Arlete, Davidson.

Uma verdadeira prova do triunfo da estupidez sobre a inteligência. Ela encarna minhas pulsões todas, de vida e de morte, em um perigoso amálgama de ferro, borracha e couro. Meu acidente mostrou todo o amor que tenho à vida . Ela não é meu desejo de destruição, mais como um flerte de destruição, como um sonho de atravessar paredes, que na vida real são deveras sólidas (tem dias que...). Minha moto encarna - ou o certo seria mineraliza?- meus amores e ódios, desejos e frustrações, impossibilidades e indesejos. Outro dia parei no posto e o cara me perguntou se eu costumava freqüentar o bar tal de motoqueiros. respondi que não tinha nada com bar de motoqueiros, ou clubes, e que ser dono de uma moto não é razão suficiente pra convívio com outros proprietários. Vejo pessoas de moto na rua e acho todos uns idiotas, mas tenho essa louca atração pelo transe que é pilotar. Tem dias que vou pro trabalho de ônibus e volto a pé. E tem dias que eu saio de casa à noite e passo verdadeiras madrugadas percorrendo as ruas vazias, sem lugar pra chegar ou pra voltar, sem vontade de parar ou continuar. Curva pra esquerda. Curva pra direita. Para. Acelera.

Neil Gaiman, aceitando o ingrato desafio de descrever o arco de Sandman em 25 palavras, disse: "The King of Dream realizes he must change or die. And he makes his choice". Fenomenal. No meio de Kindly Ones, Odin, gallows god, pergunta pra ele se ele era como um cervo paralisado pela luz, ou uma aranha que tece uma armadilha e depois finge não saber disso, caindo nela com verdadeira surpresa.

Obviamente que temo um dia não voltar para os meus pequenos gatos, mas temo ainda mais voltar em certos estados, como paralítico, amputado, locked in syndrome ou qualquer outra situação parecida, em especial aquelas em que o suicídio me seria vetado.
Eu e minha atração pelo perigo, pelas fatais, por sonho, destruição, desejo, delírio e desepero. Não sei o que vou fazer, nem pra onde vou. "You don´t have to stay anywhere forever". Me pergunto se isso vale pra myself. Não importa onde vá pra me afastar de mim, sempre me alcanço. Me pergunto se ela me ajuda na primeira opção ou na segunda. Curva pra esquerda. Curva pra direita. Para. Acelera. E o som toca "Wonderlust King", do bom e velho Gogol, que rapidamente passa para The Faint, I disappear. Enfim. Get your motor running.

7 intromissões:

O Estupidista disse...

Eu sempre quis fazer um monte de coisas: tocar guitarra, jogar futebol, sair com um monte de mulhers, escrever poesia, escrever prosa, andar de moto...
Comprei uma belíssima Epiphone Black Beauty e aprendi a tocar, bem mal, umas duas músicas. Desastre. Tenho o uniforme completo do SPFC, inclusive meias e chuteiras, que uso quando tento, sem sucesso, jogar bola. Saio bastante à noite, me visto bem, mas não sou um exemplo de bom desempenho com as mulheres. Se tento escrever poesia, parece que tenho 11 anos. Prosa, parece que tenho 15. Alguma coisa me diz pra não tentar comprar uma moto...

FUBU disse...

Em verdade te digo: gostar de andar de moto num tem nada dessa frescurada poética de gosto pela destruição e etc... é só o seu JOVEM querendo ainda falar algo do pleno sufoco em que ele está preso, em meio ao mar de mal humor e acidez que vc se tornou.
Tsc tsc.. triste.. triste.

NeuralNoise disse...

Estupidista, welcome back! Legal vc voltar aos comments no texto que falo do triunfo da estupidez... Entendo perfeitamente: quando eu toco campainha ela desafina, nas poucas vezes que tentei jogar futebol a) ficava feliz de meramente tocar na bola e b)ela sempre voava nessa ocasião pra fora da cerca. E eu comprei uma moto e vc viu no que deu! rsrsrs. Ai ai ai hein.

NeuralNoise disse...

Foobles... de um modo genérico vc tem razão. Mas o texto não fala sobre o genérico e sim sobre mim... Essa tendência à generalizar que é coisa de jovem. Se vc está equivalendo o jovem interior ao estúpido interior já faria mais sentido. Mal humor eu não tenho. maU humor, de sobra mas nem sempre. Acidez eu gosto. Go Diamond!

sophia. disse...

os unicos dois comentarios -anonimos, claro-que fiz eram apenas tentativas de expressar o quanto gosto de ler seus posts e o tanto que vc me impressiona...
encontrei seu blog por completo acaso ha menos de dois meses e o primeiro texto que li falava sobre uma mistura de melancolia, tristeza, raiva, forca... nao sei bem, uma determinada angustia com a qual me identifiquei de cara!
adorei.....
fui lendo tudo,
e vi que vc mora em ny, eu tb!
e eu morava no brooklyn.
vc eh super sensivel, inteligente, adora cinema, fotografia, gatos e tem olhos belissimos!!
li o post sobre o acidente,
e alguns outros que me tocaram particularmente...
apenas me identifiquei bastante.
anyway,
sou anonima mas posso inventar um nome qualquer porque de qualquer forma nao nos conhecemos entao nao faz diferenca...

NeuralNoise disse...

Sophia: olha que escolha de pseudônimo, era o nome da minha avó. Sendo você desconhecida, me encabulo menos. Meus gatos são o máximo, mas eu não moro mais em NY... ainda que passe vários meses por ano trabalhando lá. Se quiser se identificar, make yourself at home...

bartok disse...

Continua bacana o blog.
Voltou a andar de moto memo?
Eh maluco